Sobram nas ruas desertas as vontades ansiosas
das carpideiras cobertas de lágrimas copiosas.
Andarilhos enrugados pernoitando sobre o chão
fazem sobrar um pregão inventam noites de anil,
contam-se já pelos mil os que passam sem descanso,
que o acaso acomodou nas soleiras mais sombrias,
as luzes cobrem sem ver que quem dorme apenas passa
a imagem da desgraça das almas de outras orgias.
Ondulantes seminuas as jovens meio arqueadas,
nem se percebem toldadas,avançam dobrando o riso
sem que p’ra tanto o juízo cedo as faça adormecer.
O Porto raia brincando lançando risos ao rio
e as gaivotas acordando a margem num assobio.
Abre a Ribeira com graça o peixe cheira a mercado
e as alminhas enceradas pela luz de algum pecado,
que ali em promessa alheia lembram ao Deus criador
palavras cheias de amor pedindo assim protecção...
E o Porto assim se espreguiça disfarçando a penedia
ocupada em cantaria sobrando em luto e em dor
Abrem-se as portas roncosas e às dobradiças já gastas
junta-se a luta das tascas por um de três vaporoso...
e o Douro passa ansioso acordando para o mar
tal qual fazem os que passam da outra margem p’ra esta
limpando o suar à testa de tanto cavarem fundo
que as almas do outro mundo não querem aliviar.
Abrem casas de penhores e as mulheres alcoviteiras
sentam-se estendendo as seiras onde guardam seus valores...
que mais tarde se puderem e a vida assim as deixar
voltarão a resgatar...
No Bolhão o cheiro alho, a limão e a fava rica,
a sardinha de barrica e a polvo seco da porta;
são petiscos que emolduram as ruas pelas soleiras.
Enfeitadas as sopeiras p’ra soldados de Domingo
se apresentam mais coradas no casamento insistindo.
Nas suas cestas pequenas os galos picam à mesma
para lembrar a quaresma...
e o prato de frango assado, que de repolho enfeitado
vai cair pinga a pinguinha na gola toda bordada
da senhora arranjadinha.
No entanto o Porto é também berço de ralé...
do pinoca engalanado que leva todos no bico,
do aguadeiro que passa deixando a sede em que fico.
Das margaridas aos molhos, das mulheres parindo amor,
das tecedeiras cansadas que descem todas as ruas
em bailados orquestrados com as bolsas quase nuas.
Os carrejões se acomodam p’ra resistir ao enguiço
de pegar outro serviço que os contratos já não pagam;
em estação barulhenta os comboios assobiam
as malas são vigiadas p’ra ver se não as desviam...
e as donas alvoraçadas de olho quase de esguelha
precipitam-se arqueadas, p’ras cestas todas tapadas,
todas rotas ... quase velhas.
O cauteleiro apregoa o bilhete premiado
na pirisca do cigarro para um canto amarrotado,
no seu boné sempre posto o engraxa já assobia,
olhando apenas o chão onde passa a freguesia.
O cura dos Congregados vem à porta e traz a luz...
pensam todos que cuidando apenas da moradia
estão sempre em primazia lá p’ros lados de Jesus.
O eléctrico chiando traz de pendura os ardinas,
distribuindo as notícias que comentam nas esquinas;
para raiva dos polícias que os pretendem parar
mas desviam a atenção nas crianças por calçar.
O Porto sobra sorrindo ... cada rua cada praça
fala da vida com traça...da pobreza bolorenta,
da atitude violenta dos que bufam nos cafés,
denunciando as ralés fazendo tostões do medo.
Aproximam-se à socapa roubam da boca o segredo
que salta de mão em mão, de quem apenas falava
da liberdade ansiada que nunca é consentida...
na memória dum país
dum Portugal algemado que nunca foi aprendiz.
E assim o Porto adormece, para acordar novamente
na boca de toda a gente, na marmita já feita
da comida já desfeita com as sobras do jantar...
na mão do trabalhador, que gasta tempo e suor
p´ra suar sem melhoria.
Mas a longa penedia desce a encosta docemente,
veste a figura de gente dum Porto quase abastado
que no seu jeito cansado bate forte de emoção
permanecendo embalado
e tudo a bem da nação...
obrigada pela tua amizade.
beijinhos